Resenha de Sleeping Beauty

Quando vi o trailer de Sleeping Beauty sabia que o filme ia ser ou incrível ou uma grande perda de tempo, não tem meio termo para um filme que se propõe a ser tão intenso e obscuro. Emily Browning é a atriz perfeita para viver uma personagem com ares de Lolita, como ela já tinha feito em Sucker Punch, longa que ela terminou de gravar semanas antes de começarem as gravações de Sleeping Beauty. Depois da atriz, esse é o segundo acerto do filme, o nome. Super instigante, ele dá a trama realista um tom fantasioso e deixa claro qual é a caracteristica mais determinante da vida da personagem principal, sua beleza.

Lucy é uma estudante que por motivos que o filme não revela, foi obrigada ou escolheu ser autosuficiente. Ela tem 2 empregos, participa como cobaia humana de estudos e ainda faz outros bicos para pagar sua faculdade e seu aluguel. Por bicos entenda prostituição. Ou seja, entre faculdade, empregos, drogas e sexo ela praticamente não pode dormir. A ironia é que entre um bico e outro ela se perde de vez no mundo da prostituição sendo paga dormir enquanto homens fazem o que querem com ela, sem que ela saiba o que. Quando soliticitada por Clara – uma mulher distinta que atua como facilitadora entre homens e suas fantasias esquisitas, Lucy é levada para uma mansão distante da cidade onde é drogada com um chá bem louco e só acorda no dia seguinte.

Jovem, linda e com carinha de anjo, óbvio que ela é um achado para qualquer “agente”, então os chamados continuam. Ainda mais porque ela parece não ter vergonha, nem medo de nada, nesse ponto a personagem te interessa e cativa, mas isso logo se perde porque o filme não se preocupa em revelar nada mais sobre quem ela é.

Sleeping Beauty 2011

O filme é uma coleção de cenas que não se preocupam em situar o telecpetador, o que conceitualmente pode ser interessante, mas não funciona. Na maioria dos filmes, quandos personagens interagem com a personagem principal, ou algo acontece com ela, tem um jeito até meio didático de explicar o que isso diz sobre ela. Por exemplo, quando um cara que fez parte do passado da personagem aparece, ele sempre vem com um “lembra aquela vez que…” e você fica sabendo o que ele significa para a personagem e porque está ali naquele momento. Ou quando a personagem toma alguma atitude sem sentido, a cena mostra a reação dela para explicar porque ela se comportou daquele jeito e o que isso diz sobre ela. Em Sleeping Beauty isso não acontece, tudo que interage com a personagem fica solto e embora isso prenda a atenção porque te mantém querendo saber no que vai dar, logo você percebe que não vai sair disso e então você se desconceta da personagem e começa a não ligar muito se ela vai morrer, viver ou sofrer. E parece que a culpa não é da atriz, que foi bem sucedida em passar o que o roteiro lhe pediu.

Spoiler Alert

Lucy se mata de trabalhar para conseguir dinheiro e em uma das cenas ela pega notas do envelope que recebeu de Clara e queima. Ela tem uma discussão com um homem que a odeia por algo que ela fez no passado dele, mas nada se sabe sobre o que ele significa para ela ou como ela se sente sobre o que fez para ele. Ela dá o número do seu cartão de crédito para a mãe, mas nada se percebe sobre o que ela sente pela mãe, ou em que termos está o relacionamento delas. Lucy visita várias vezes um amigo doente que parece ser apaixonado por ela. Quanto ela realmente sente por ele já não fica claro. Ela se importa e chora quando ele morre, mas quem ele era para ela e o que ele tinha, não é dito. Nem ao menos qual curso ela faz na faculdade ficamos sabendo. A personagem chega ao final do filme como uma conhecida que tem um video dela se prostituindo colocado no youtube. Nós não temos envolvimento emocional com a história dela, é uma estranha.

Sleeping Beauty 2011

Segundo Clara, existe uma regra. Os homens não podem penetrar a bela adormecida. A preocupação sobre o que então é feito nas horas em que ela está drogada começa a atingir Lucy. Ai ela resolve filmar secretamente uma das noites que resulta no desfecho do filme. O homem dessa noite, que já tinha usado seus serviços, resolve que quer ser drogado também para dormir com ela, mas ele tem uma overdose e pela manhã Clara não consegue acordá-lo. Ela se desespera por Lucy mas consegue reanima-la. Quando acorda, ela vê o homem morto ao seu lado e começa a gritar. Ai o filme acaba.

Sleeping Beauty 2011

Antes de ser deixado a sós com Lucy pela primeira vez, o cliente conta para Clara sobre um livro que leu, que em resumo diz que as pessoas agem como se tivessem paralisadas, presas a suas camas, como se algo físico as impedissem de serem quem elas querem ser e fazer o que sonham fazer, e talvez isso seja o que acontece com Lucy. Ela se força a ser abusada de diversas formas por dinheiro, não mantem laços com ninguém que ame e não se permite nem ter medo por sua vida. Ela age como se estivesse passando a vida dormindo, por mais acordada que esteja. Ela não luta por ela, pela sua dignidade ou pela sua felicidade, ela acha que está paralisada em uma cama e não pode se levantar.
Ela é realmente bela adormecida. Usando sua beleza para encobrir quem quer que ela seja.

O fato do filme precisar entregar essa verdade sobre a trama tão diretamente sem que o expectador conseguisse chegar nela sozinho, é o que mostra a fraquesa do roteiro e da direção, ambos assinados por Julia Leigh – romancista australiana que estreiou no cinema com esse filme. A boa notícia é que talvez o problema de Leigh seja mesmo a falta de experiencia e um dia ela realmente vai pegar uma trama com super potencial e transformar em um ótimo filme. Mas ela merece o crédito por tentar fazer do seu jeito e dá a impressão que um dia vai chegar lá. Sleeping Beauty ficou com a categoria perda de tempo, mas estou curiosa para ver o próximo filme da diretora

Fotos: Reprodução

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